ENTREVISTA - João Batista Dominici (LOGISPESA)


Alto custo logístico sufoca a indústria de cargas pesadas


O Brasil pouco avançou na sua infraestrutura rodoviária nos últimos 50 anos e chega em 2022 com apenas 10% suas estradas asfaltadas, das quais uma ínfima parcela, de 13%, possui pista dupla.

De acordo com o engenheiro João Batista Dominici, presidente da Logipesa (Associação Brasileira de Logística Pesada), a maior parte dos estados e municípios brasileiros não dispõe de infraestrutura viária compatível com o transporte de equipamentos ou peças de grande porte.


Segundo ele, em todos os estados há pontes e rodovias, em locais estratégicos, sem capacidade para cargas para PBT (Peso Bruto Total) acima de 45 toneladas. “A este fato se somam as tarifas astronômicas e a incapacidade das administrações públicas em oferecer informações de roteiro compatíveis com as exigências de AET (Autorização Especial de Transporte)”, afirma ele.


São Paulo reproduz o atraso

Mesmo tendo a melhor malha rodoviária do Brasil, o estado de São Paulo não dispõe sequer de uma rodovia adequada para se levar cargas indivisíveis, de grande porte, desde o interior do Estado até a estratégica zona portuária.

Assim, para se transportar um transformador elétrico, de apenas 50 toneladas, da região de Araraquara até Santos, é preciso que a concessionária seja acionada para isolar a pista de subida da rodovia, na contramão dos automóveis. Uma operação com alto custo financeiro, simplesmente porque o SAI – Sistema Anchieta Imigrantes - não comporta o trânsito de caminhões carregados com largura do conjunto transportador acima 5,50m; altura acima 5,30m; e comprimento acima 26,0m. Sendo que o Peso Total (veículo + carga) não pode exceder as 70t.



Dominici estima que, em 15 anos, o Brasil não chegou a construir nem 500 Km de estradas, enquanto a China, por exemplo, constrói 1.000 quilômetros de rodovia anualmente.


“Assiste-se, por um lado, ao sucateamento do parque rodoviário e, ao mesmo tempo, o crescimento exponencial das taxas cobradas pelo uso das rodovias (TAP, TUV)”assinala Dominici.


Segundo ele, a busca de maior eficiência do setor produtivo faz aumentar o peso e dimensões das cargas estratégicas, a exemplo do que acontece no segmento eólico, mas a infraestrutura logística permanece estagnada.

Para ilustrar a realidade do setor, Dominici simula o transporte de uma turbina de 250t de carga líquida (apenas o peso da peça) indo do interior ao litoral Sul de São Paulo, com o uso de um veículo de 36 eixos. Considerando-se um Peso Bruto Total da ordem de 400t, só a soma dos custos com pedágio, inversão de pista (Ecovias), taxas de AET e outras providências a cargo da concessionária, pode ultrapassar os R$ 200,00 mil, o que acarreta em preços finais muito altos.

Em consequência dessas agruras, os prejuízos atingem não só o setor de transporte, mas também a sua restrita clientela. “São Paulo já perdeu dois fabricantes de equipamentos para usinas eólicas: a Tecsis, que quebrou, e a Wobben, que deixou de produzir pás eólicas no País. E isto se deu, em grande parte pela baixa eficiência logística do Brasil”, completa o presidente da Logipesa.


Texto - Ponto do Pesado

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